Resposta direta: Sim, é possível ter bruxismo sem sentir dor nos dentes, na mandíbula ou na cabeça. A atividade dos músculos mastigatórios nem sempre provoca desconforto.
Se não sinto nada, por que surgiu a suspeita de bruxismo?
Você vai a uma consulta de rotina, sem nenhuma queixa, e ouve que talvez tenha bruxismo. A primeira reação pode ser de surpresa: como algo estaria acontecendo se você dorme, mastiga e passa o dia sem dor?
Bruxismo é uma atividade dos músculos mastigatórios que pode envolver ranger ou apertar os dentes. Ela ocorre durante o sono ou enquanto a pessoa está acordada, e nem sempre é percebida. Mesmo sem dor, a parafunção pode provocar estalidos mandibulares, desgaste dentário, mobilidade dentária, trincas e lesões cervicais não cariosas.
Por que bruxismo e dor nem sempre aparecem juntos?
A presença de bruxismo não determina, necessariamente, o aparecimento de dor. Isso depende do comportamento muscular, das características individuais e de uma série de fatores associados.
Primeiro, precisamos distinguir de qual dor estamos falando: dentária, muscular, articular ou cefaleia. Cada uma possui mecanismos diferentes.
Na dor dentária, importa saber se o indivíduo range ou aperta os dentes, quais superfícies dentárias estão envolvidas e qual a intensidade do desgaste. Uma perda restrita ao esmalte pode não provocar qualquer sintoma, enquanto a exposição da dentina pode produzir sensibilidade. A condição gengival, a presença de recessões, os hábitos de escovação, a exposição das raízes e o consumo frequente de alimentos ácidos também influenciam esse processo. Portanto, dois indivíduos que rangem os dentes podem apresentar consequências dentárias completamente diferentes.
Na dor muscular, é importante saber o padrão da atividade: o tipo de comportamento, frequência, intensidade e duração. Contrações sustentadas podem representar uma sobrecarga diferente daquela produzida por episódios breves e intermitentes. A capacidade muscular, a resistência à fadiga e as características individuais também devem ser consideradas.
Além disso, sentir dor não depende exclusivamente da força muscular. Fatores genéticos, sensibilidade individual, mecanismos de modulação da dor e presença de outras condições dolorosas podem influenciar a resposta. Um indivíduo pode apresentar atividade muscular intensa sem dor, enquanto outro pode sentir desconforto diante de uma atividade menor.
Dor articular: o bruxismo pode estar associado a alterações da articulação temporomandibular. Entretanto, a presença de uma alteração articular não significa, necessariamente, que o paciente sentirá dor. Por que indivíduos com condições clínicas semelhantes podem apresentar respostas dolorosas tão diferentes?
Parte dessa resposta pode estar na genética. Durante meu doutorado na Faculdade de Odontologia de Bauru, da Universidade de São Paulo (USP), investigamos justamente a influência de variantes genéticas nas disfunções temporomandibulares. Demonstramos associações entre determinados polimorfismos genéticos e a presença de DTM, além de diferenças individuais na sensibilidade à dor (Furquim et al., 2016).
Esses resultados ajudam a compreender por que uma alteração articular pode ser dolorosa para alguns indivíduos e assintomática para outros. A dor não depende apenas da alteração estrutural ou da sobrecarga mecânica, mas também da predisposição biológica de cada paciente.
Em outro estudo do qual fui coautor, conduzido em 2022, investigamos por que pacientes com uma mesma manifestação articular podem apresentar experiências dolorosas diferentes. Comparamos indivíduos que apresentavam estalidos na articulação temporomandibular: alguns sentiam dor, outros não. Identificamos diferenças genéticas significativas entre esses grupos, envolvendo genes relacionados à inflamação, à degradação dos tecidos articulares e à sensibilidade dolorosa. Os pacientes com estalidos dolorosos também apresentaram maior sensibilidade à pressão na articulação. Esses resultados reforçam que a presença de uma alteração articular, isoladamente, não determina a ocorrência de dor. A predisposição genética pode ajudar a explicar por que alguns indivíduos sentem dor e outros não (Poluha et al., 2022).
Nas cefaleias, a interpretação também precisa ser cuidadosa. Nem toda dor de cabeça matinal é consequência do apertamento ou ranger dos dentes. Distúrbios respiratórios do sono, como a apneia obstrutiva, podem coexistir com o bruxismo e estar associados a cefaleias, fragmentação do sono e outros sintomas. Nesses casos, atribuir automaticamente a dor à atividade muscular mastigatória pode levar a conclusões equivocadas.
Em síntese, o bruxismo é um comportamento; a dor é uma resposta individual e multifatorial. Sua presença, intensidade ou frequência não permitem prever, isoladamente, quem desenvolverá dor dentária, muscular, articular ou cefaleia.
Desgaste nos dentes sem dor é motivo para preocupação?
Desgaste dentário é a perda de estrutura do dente. Ele pode ocorrer por mecanismos diferentes, incluindo atrito e ação de ácidos, e não deve ser atribuído automaticamente ao bruxismo. O esmalte perdido não se recompõe espontaneamente, mas encontrar desgaste não informa quando ele ocorreu nem se continua avançando.
Imagine duas situações: alguém tem uma pequena alteração que permanece igual há anos; outra pessoa percebe novas lascas em poucos meses. Mesmo sem dor, as perguntas e as decisões serão diferentes.
Minha orientação é dar atenção à evolução. Fotografias clínicas, modelos e escaneamentos anteriores podem ajudar a comparar o formato dos dentes. Um estudo prospectivo sobre escaneamento e desgaste dentário ilustra o uso desses registros no acompanhamento. O recurso faz sentido quando responde a uma dúvida; ele não substitui a interpretação do dentista.
Preciso usar placa mesmo sem sentir dor?
Às vezes, sim. A indicação pode ter como objetivo proteger dentes ou restaurações, mesmo que você não sinta desconforto. Mas perceber apertamento ou receber a informação de que “tem bruxismo” não torna a placa obrigatória. Além de todas as informações científicas disponíveis, o bom senso sempre ajuda na tomada de decisão.
Quem assina este artigo?
Dr. Bruno D’Aurea Furquim · CRO-SP 129075-IS. Cirurgião-dentista pela PUCPR, mestre em Ortodontia e doutor em Reabilitação Oral, com ênfase em DTM, pela Faculdade de Odontologia de Bauru da USP. Cofundador e integrante da direção clínica da Senso. Conheça seu perfil profissional no LinkedIn.
Referências científicas
- Temporomandibular disorders in patients with polysomnographic diagnosis of sleep bruxism: a case-control study. 2021.
- Intraoral Scanning for Monitoring Dental Wear and Its Risk Factors: A Prospective Study. 2024.
- Effects of different interventions on bruxism: an overview of systematic reviews. Sleep and Breathing, 2024.
- National Institute of Dental and Craniofacial Research. Bruxism. Revisado em março de 2025.
- Furquim BD, et al. (2016). Influence of TNF-α-308 G/A gene polymorphism on temporomandibular disorder. American Journal of Orthodontics and Dentofacial Orthopedics. 149(5):692–698.
- Poluha RL, Soares FFC, Furquim BDA, et al. Painful Temporomandibular Joint Clicking: A Genetic Point of View. Journal of Oral & Facial Pain and Headache. 2022;36(3–4):229–235.

