Resposta direta: Não. Ter bruxismo não significa, automaticamente, ter uma doença ou precisar de placa, medicamento ou procedimento. O tratamento é considerado quando há consequências, sintomas ou um risco individual que justifique alguma intervenção. Em certas situações, orientação e acompanhamento são suficientes. Em outras, pode ser necessário proteger dentes, tratar uma condição dolorosa ou investigar problemas associados. A escolha deve partir do que foi encontrado no seu caso e do benefício esperado de cada medida.

Recebi um diagnóstico de bruxismo: por onde começo?

Talvez alguém tenha ouvido você ranger os dentes. Talvez o assunto tenha surgido em uma consulta de rotina, depois de o dentista observar algum desgaste dentário. A partir daí, é natural imaginar que existe um problema e que alguma coisa precisa ser feita.

Mas, antes de pensar em tratamento, precisamos esclarecer um ponto fundamental: bruxismo não é uma doença. É um comportamento motor que pode ou não produzir consequências para a saúde.

O bruxismo compreende diferentes atividades dos músculos mastigatórios, como apertar ou ranger os dentes, que podem ocorrer durante o sono ou enquanto estamos acordados. Sua manifestação varia entre indivíduos e também ao longo do tempo.

Em 2026, Daniele Manfredini e Frank Lobbezoo propuseram uma compreensão ainda mais ampla desse fenômeno, baseada no modelo biopsicossocial. Segundo os autores, o bruxismo deve ser entendido como um conjunto de comportamentos influenciados pela interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Essas atividades podem não apresentar consequências clínicas e, em determinadas circunstâncias, até desempenhar funções relacionadas à regulação da atividade do sistema nervoso (Manfredini e Lobbezoo, 2026).

Essa perspectiva muda a maneira como devemos abordar o bruxismo. A questão não é simplesmente descobrir se uma pessoa tem bruxismo, mas compreender como esse comportamento se manifesta, o que pode estar relacionado à sua ocorrência e se existem consequências que realmente necessitem de cuidado.

Afinal, nem todo comportamento precisa ser tratado, e nem toda alteração encontrada no exame clínico pode ser atribuída ao bruxismo.

Quando apenas acompanhar pode ser suficiente?

O acompanhamento pode ser uma opção quando não há sintomas relevantes, os dentes não mostram mudanças preocupantes e o risco identificado não justifica uma intervenção imediata. Essa conclusão depende de uma avaliação, e não apenas da impressão de que o apertamento é leve.

Imagine que exista um pequeno desgaste, registrado há anos e aparentemente estável. A decisão pode ser diferente daquela tomada quando surgem novas fraturas em pouco tempo. Comparar registros ajuda a entender o que está acontecendo.

A idade do paciente é também um ponto relevante. Ficaria muito mais preocupado com um desgaste de 1 mm de um incisivo central de uma criança de 7 anos do que com um desgaste de 2 mm em um adulto de 50 anos. O acompanhamento tem um propósito claro: o paciente deve saber quando voltar e quais sinais devem ser monitorados e podem obrigar uma antecipação do retorno ao dentista. Por isso criamos um protocolo de Longevidade, onde acompanhamos o uso da oclusão e controlamos o sobreuso.

Quais situações podem justificar tratamento?

Uma intervenção pode estar indicada quando há uma consequência ou um risco bem identificado, por exemplo:

  • Desgaste dentário com progressão demonstrada.
  • Fraturas repetidas em dentes ou restaurações.
  • Dor que interfere na alimentação, no sono ou nas atividades habituais.
  • Estruturas dentárias que precisam de proteção.
  • Apertamento em vigília que pode ser abordado com estratégias comportamentais.
  • Sinais de uma condição associada que merece investigação própria.

Essa lista não prova que o bruxismo seja a causa de todos esses problemas de forma isolada, por isso que precisamos diagnosticar a presença de comorbidades e além de saber se o paciente tem bruxismo, entender quem é esse paciente que está apresentando um comportamento bruxista mais intenso.

Se tenho dor, basta tratar o bruxismo?

Não necessariamente. Dor na mandíbula, nos dentes ou na cabeça precisa ser investigada, mesmo em pessoas que apertam ou rangem os dentes. Atribuir toda dor ao bruxismo pode significar deixar outras causas sem diagnóstico.

A articulação temporomandibular (ATM) conecta a mandíbula ao crânio. Já o termo disfunção temporomandibular (DTM) reúne diferentes condições que afetam essa articulação, os músculos mastigatórios e estruturas relacionadas. Bruxismo e DTM podem coexistir, mas são condições distintas, e a presença de um não implica necessariamente a existência do outro.

Quando a principal queixa é dor, o primeiro passo é identificar sua origem. O uso de placas oclusais ou estratégias para reduzir o apertamento pode ser considerado em determinadas situações, mas não substitui o diagnóstico da condição dolorosa.

Também importa compreender como essa dor interfere na vida do paciente. Evitar certos alimentos, mastigar apenas de um lado ou sentir desconforto ao falar são informações tão relevantes quanto a intensidade da dor. Afinal, o tratamento deve considerar não apenas os sintomas, mas também suas consequências sobre a função e a qualidade de vida.

Mas por que pessoas com alterações articulares semelhantes podem apresentar experiências dolorosas tão diferentes?

Parte da resposta pode estar na genética. Durante meu doutorado na Faculdade de Odontologia de Bauru, da Universidade de São Paulo (USP), investigamos a influência de variantes genéticas nas disfunções temporomandibulares. Encontramos associações entre determinados polimorfismos genéticos e a presença de DTM, além de diferenças individuais na sensibilidade dolorosa (Furquim et al., 2016).

Em 2022, participei de outro estudo que aprofundou essa questão. Comparamos pacientes com estalidos na ATM, alguns com dor e outros sem qualquer sintoma doloroso. Embora apresentassem manifestações articulares semelhantes, os grupos mostraram diferenças genéticas envolvendo mecanismos de inflamação, degradação dos tecidos articulares e modulação da dor. Os pacientes com estalidos dolorosos também apresentaram maior sensibilidade à pressão sobre a articulação (Poluha et al., 2022).

Esses achados ajudam a compreender uma situação frequente na prática clínica: pacientes com alterações articulares importantes que não sentem dor e outros com alterações discretas que apresentam sintomas intensos.

A alteração estrutural, por si só, não determina a presença nem a intensidade da dor. Fatores genéticos podem influenciar essa resposta, assim como outros mecanismos biológicos, psicológicos e sociais. É por isso que compreender a dor exige mais do que identificar alterações na articulação ou atribuir os sintomas ao bruxismo.

Qual é a diferença entre proteger dentes e controlar bruxismo?

São objetivos distintos, embora possam fazer parte do mesmo plano. Uma placa pode ser indicada para proteção dentária; uma estratégia comportamental busca modificar padrões de apertamento durante o dia; uma restauração repara uma estrutura danificada.

Objetivo do tratamento / controleO que precisa ser discutido
Proteger dentes ou restauraçõesQuais estruturas estão vulneráveis e como serão acompanhadas
Reduzir apertamento em vigíliaQue estratégia cabe na rotina e como avaliar se está ajudando
Cuidar de uma condição dolorosaQual é o diagnóstico e como medir dor e função
Restaurar um dente danificadoPor que restaurar, quais fatores contribuíram e como preservar o resultado
Tratar um distúrbio do sonoSe o bruxismo está associado a um sono não reparador ou a distúrbios respiratórios do sono

Uma revisão de revisões sobre intervenções para bruxismo encontrou resultados variados conforme o recurso e o efeito analisado.

A placa deve ser a primeira escolha em todos os casos?

Não. A placa pode ter utilidade quando existe uma indicação, mas não precisa ser a resposta automática ao diagnóstico. Antes de confeccionar o dispositivo, é importante esclarecer finalidade, adaptação e revisões.

Também é preciso saber o que ele não promete: eliminar definitivamente toda atividade muscular ou impedir qualquer dor futura. Uma revisão sistemática sobre manejo do bruxismo do sono mostra a diversidade de resultados e as limitações das evidências disponíveis.

Placa é igual travesseiro! Dependendo do seu volume e material pode atrapalhar. Por isso que a placa deve ser feita de forma cuidadosa e individualizada.

Que outras medidas podem fazer parte do cuidado?

O plano pode incluir orientações, observação dos hábitos, proteção dentária e tratamento das condições que forem identificadas. A escolha depende do momento em que o comportamento ocorre e das necessidades de cada pessoa.

No bruxismo em vigília, estratégias comportamentais podem ajudar a reconhecer e modificar padrões. Uma revisão publicada em 2026 encontrou possíveis benefícios, mas ressalta que a evidência ainda é limitada. Na prática, vale combinar uma estratégia viável e depois verificar se trouxe benefício.

Durante o sono, não faz sentido exigir que você controle voluntariamente a mandíbula. Se existem queixas como ronco importante ou sonolência excessiva, elas devem ser relatadas e podem justificar investigação própria. Da mesma forma, medicamentos e mudanças recentes de saúde precisam ser informados, sem suspender tratamentos por conta própria. É sempre bem-vinda a busca por um sono de boa qualidade e quantidade.

Devo ou não tratar?

Essa decisão deve ser construída com informações sobre seu exame, seu histórico e suas prioridades. Risco significa possibilidade, não certeza de que algo ruim acontecerá.

Uma sequência de fraturas pode pesar na recomendação de proteção. Um achado estável, sem sintomas e sem outros motivos de preocupação, pode permitir acompanhamento. Nenhuma dessas situações autoriza prever o futuro com total segurança, mas ambas permitem tomar decisões proporcionais ao que se sabe. Cabe ao profissional explicar sua recomendação e ouvir o que é importante para você.

Quando buscar uma nova avaliação?

Uma reavaliação é útil quando surgem novos sintomas ou quando uma placa está há muito tempo sem revisão.

Se você acredita que o seu comportamento de bruxismo mereça atenção especial e quer entender se realmente precisa tratar, agende uma avaliação com a equipe Senso. Podemos examinar as possíveis consequências e discutir uma conduta adequada à sua situação, incluindo acompanhamento quando essa for a melhor escolha.

Quem assina este artigo?

Dr. Bruno D’Aurea Furquim · CRO-SP 129075-IS. Cirurgião-dentista pela PUCPR, mestre em Ortodontia e doutor em Reabilitação Oral, com ênfase em DTM, pela Faculdade de Odontologia de Bauru da USP. Cofundador e integrante da direção clínica da Senso. Conheça seu perfil profissional no LinkedIn.

Referências científicas