O bruxismo pode variar ao longo do tempo, e períodos com menos ruído, tensão ou desconforto podem ser seguidos por uma nova percepção desses sinais. Isso não significa, necessariamente, que ele tenha desaparecido e depois voltado. A atividade muscular, os sintomas e a capacidade de percebê-los não mudam sempre juntos. Para entender a oscilação, é preciso observar o sono, a rotina, a saúde dos dentes e a presença de dor, sem concluir automaticamente que um tratamento deixou de funcionar.
Mesmo após um período sem sintomas, a dor na mandíbula pode reaparecer. O mesmo acontece com o ranger dos dentes durante o sono, que pode voltar a ser percebido por quem dorme ao seu lado. Isso não significa, necessariamente, que o tratamento deixou de funcionar.
É importante distinguir o que mudou. O retorno da dor, a percepção de ruídos durante o sono ou o aparecimento de marcas na placa oclusal não têm o mesmo significado clínico. Cada situação exige uma avaliação própria, que pode indicar apenas a necessidade de acompanhamento ou até uma revisão do tratamento e alguma alteração de conduta.
O que exatamente pode oscilar no bruxismo?
Bruxismo é uma atividade dos músculos mastigatórios que pode envolver ranger ou apertar os dentes e sustentar ou projetar a mandíbula com esforço. Ele pode ocorrer durante o sono ou na vigília, quando estamos acordados. A definição internacional atualizada em 2025 reforça essa compreensão como atividade muscular, cuja importância clínica depende do contexto.
Quando alguém diz que o bruxismo voltou, pode estar descrevendo pelo menos três mudanças: mais atividade, maior percepção da atividade ou consequências que se tornaram mais evidentes. Por exemplo, notar apertamento em uma semana de trabalho concentrado não informa quanto ele ocorria antes. Da mesma forma, sentir menos dor não permite concluir que todos os movimentos noturnos cessaram. Por isso, a comparação mais útil é entre sinais semelhantes, observados de maneira semelhante.
A atividade durante o sono muda de uma noite para outra?
Sim. O bruxismo do sono não apresenta a mesma frequência ou intensidade todas as noites. Um estudo que monitorou a atividade muscular mastigatória durante cinco noites consecutivas encontrou variações importantes entre os registros. Isso significa que uma única noite de exame pode não representar o comportamento habitual do paciente.
Essa variabilidade também precisa ser compreendida à luz de um conceito importante: o bruxismo não é um fenômeno simplesmente presente ou ausente. Ele ocorre em um continuum de atividade muscular, com diferentes frequências, intensidades e durações. Essa perspectiva, proposta no consenso internacional de 2018 e mantida nas discussões mais recentes, incluindo a atualização das definições de bruxismo de 2025, da qual Daniele Manfredini participou, afasta a ideia de que exista um limite universal capaz de separar indivíduos saudáveis daqueles com sintomas.
Ficar sem ouvir ranger significa que o bruxismo passou?
Não necessariamente. O ranger pode produzir som, mas nem toda atividade muscular é audível. Além disso, quem divide o quarto também dorme, muda de posição e pode passar períodos sem perceber os ruídos.
Imagine duas semanas em que o casal tem horários diferentes. A ausência de relatos nesse intervalo não comprova uma mudança na atividade de quem range. Ela pode refletir uma mudança na oportunidade de ouvir. O exemplo não diminui a importância do relato: apenas mostra por que ele precisa ser interpretado com outras informações.
Por que a dor pode voltar mesmo quando os dentes estão protegidos?
A dor tem de ser investigada como uma queixa própria. Disfunções temporomandibulares, ou DTM, envolvem músculos mastigatórios, articulações da mandíbula e estruturas relacionadas. Bruxismo e DTM podem coexistir, mas um não substitui o diagnóstico do outro.
Uma placa indicada para proteção dentária pode estar cumprindo esse objetivo sem resolver todas as razões para uma dor na face. Também é possível que a dor atual seja diferente daquela que motivou o atendimento anterior. Sua localização, duração e relação com os movimentos ajudam a esclarecer isso.
Eu perguntaria: o incômodo voltou no mesmo lugar? Aparece ao mastigar, ao abrir a boca ou espontaneamente? Há sensibilidade em um dente específico? A resposta muda o caminho da avaliação. O NIDCR descreve a necessidade de distinguir as diferentes condições de DTM, em vez de tratar toda queixa mandibular como uma única doença.
Mudanças na rotina podem explicar a oscilação?
Elas podem oferecer pistas. Uma nova tarefa, noites mal dormidas ou uma mudança de horário podem coincidir com maior percepção de tensão. Também vale relatar alterações de saúde, início ou ajuste de medicamentos e mudanças no consumo de substâncias como cafeína e álcool.
Coincidência, porém, não é confirmação de causa. Se o desconforto surgiu durante uma viagem, por exemplo, pode haver mais de uma mudança envolvida: sono, alimentação, uso da placa e atenção aos sintomas. A história precisa ser reconstruída sem escolher uma explicação antes do exame.
No apertamento em vigília, ajuda identificar momentos concretos. “Percebo a mandíbula rígida quando reviso planilhas” é uma informação mais útil do que “devo estar muito estressado”. A primeira permite conversar sobre um comportamento reconhecível, sem transformar a pessoa em responsável por cada oscilação.
Devo voltar a usar uma placa antiga por conta própria?
Se há uma orientação de uso em andamento, siga o plano combinado e procure o profissional quando perceber mudanças. Já uma placa guardada há muito tempo merece reavaliação antes de ser retomada, principalmente se houve tratamento dentário ou alteração no encaixe.
Não force o dispositivo para fazê-lo entrar, nem desgaste suas superfícies em casa. O fato de ele ainda parecer inteiro não confirma que continue adequado à boca ou ao objetivo atual.
Também não é uma boa ideia aumentar por conta própria o número de horas de uso porque houve uma noite com ruído. O tempo de uso deve estar ligado à indicação. Um retorno dos sinais é motivo para conversar sobre o plano, e não para improvisar uma intensificação do tratamento.
Sobre o autor
Dr. Bruno D’Aurea Furquim · CRO-SP 129075-IS. Cirurgião-dentista pela PUCPR, mestre em Ortodontia e doutor em Reabilitação Oral, com ênfase em DTM, pela Faculdade de Odontologia de Bauru da USP. Cofundador e integrante da direção clínica da Senso. Perfil profissional no LinkedIn.
Referências científicas
- Verhoeff e colaboradores. Atualização das definições de bruxismo. Journal of Oral Rehabilitation, 2025.
- Variability of sleep bruxism—findings from consecutive nights of monitoring. Clinical Oral Investigations, publicação online em 2021.
- Effects of different interventions on bruxism: an overview of systematic reviews. Sleep and Breathing, 2024.
- National Institute of Dental and Craniofacial Research. Disfunções temporomandibulares.

