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BRUXISMO

Bruxismo infantil: quando devemos nos preocupar?

Criança acompanhada de um adulto durante uma conversa com dentista, diante de uma radiografia.
Imagem ilustrativa. Foto: cottonbro studio / Pexels.

Resposta direta: Quando a criança range os dentes com frequência, apresenta desgaste dentário progressivo, dor, sensibilidade ou dificuldade para mastigar, vale a pena procurar um odontopediatra, ortodontista ou especialista em dor orofacial para que ela possa ser avaliada. A avaliação deve considerar o desenvolvimento da criança, a condição dos dentes, a qualidade do sono e as possíveis consequências do bruxismo. A partir disso, o profissional poderá orientar, acompanhar ou investigar condições que necessitem de tratamento.

Ouvir uma criança ranger os dentes pode impressionar muito. A reação costuma ser imediata: será que ela está quebrando ou desgastando os dentes? Precisa de uma placa? É melhor acordá-la?

O que é bruxismo infantil?

Bruxismo é uma atividade dos músculos da mastigação que pode envolver apertar ou ranger os dentes e manter a mandíbula sob tensão. Pode ocorrer durante o sono ou enquanto a criança está acordada.

Se o barulho é alto, o caso é grave?

A intensidade do barulho produzido pelo ranger dos dentes não é um indicador estabelecido da gravidade do bruxismo ou de suas possíveis consequências clínicas.

O volume pode assustar, mas não mede diretamente o dano dentário nem a necessidade de tratamento. Também não informa, por si só, quanto tempo a atividade dura durante o sono.

Algumas famílias percebem o som porque a criança dorme perto dos responsáveis. Outras só recebem esse relato em uma viagem ou quando alguém compartilha o quarto.

O desgaste dentário pode preocupar mais, caso a criança já tenha os incisivos e molares permanentes irrompidos.

Quais sinais justificam procurar o odontopediatra?

O relato frequente de ranger pode ser levado à consulta de acompanhamento. Não é preciso esperar aparecer dor. Procure avaliação mais próxima quando houver:

  • Queixa recorrente de dor na face, nos dentes ou ao mastigar.
  • Sensibilidade que interfere em comer ou beber.
  • Fratura, lasca ou desgaste aparentemente em progressão.
  • Dificuldade para abrir a boca ou episódios de travamento.
  • Mudança persistente na forma de se alimentar.
  • Sono acompanhado de ronco, engasgos ou pausas respiratórias percebidas.

Uma criança pode ter dificuldade para localizar ou nomear a dor. Dizer que “a boca está cansada”, recusar alimentos antes aceitos ou pedir ajuda para mastigar merece atenção, sem concluir antecipadamente que o bruxismo é a causa.

Dentes de leite desgastados precisam sempre de tratamento?

A decisão depende do tipo e da extensão do desgaste, dos sintomas e da fase de desenvolvimento. A dentição está mudando, e uma fotografia isolada não permite distinguir tudo o que é relevante.

O odontopediatra avalia dentes de leite e permanentes presentes, restaurações, tecidos da boca e função mandibular. Também considera se a alteração parece antiga ou está progredindo.

Não é adequado ignorar um desgaste expressivo apenas porque o dente será trocado. Da mesma forma, não faz sentido indicar um tratamento amplo para toda pequena alteração de formato.

O bruxismo significa que meu filho está ansioso?

Não necessariamente. Algumas pesquisas mostram que crianças com ansiedade ou estresse apresentam mais relatos de bruxismo, especialmente a partir dos 6 anos de idade. Entretanto, isso não significa que a ansiedade seja a causa do ranger dos dentes. Um estudo que avaliou crianças com e sem transtorno de ansiedade, utilizando polissonografia, exame que registra diferentes atividades do organismo durante o sono, não encontrou diferença significativa na ocorrência de bruxismo entre os grupos. Esses resultados mostram que a relação entre ansiedade e bruxismo infantil é mais complexa do que parece.

O ambiente familiar também tem sido investigado. Uma revisão sistemática de Restrepo e Winocur (2023) reuniu pesquisas que abordaram fatores emocionais e familiares associados ao bruxismo infantil. Mais recentemente, Moya-López e colaboradores (2025) observaram mais relatos de bruxismo e níveis mais elevados de ansiedade em crianças com pais separados. No entanto, é importante interpretar esses resultados com cautela. O bruxismo foi identificado por questionários respondidos pelos responsáveis, e não por exames que registrassem a atividade dos músculos durante o sono. Assim, diferenças na atenção dos pais ou na proximidade com os filhos durante a noite podem ter influenciado os relatos, embora essa possibilidade não tenha sido demonstrada.

O mais importante é entender que ranger os dentes não significa, por si só, que uma criança esteja ansiosa. O bruxismo infantil é multifatorial, e fatores genéticos, características do sono e aspectos emocionais podem estar envolvidos. Por isso, não devemos associar automaticamente o ranger dos dentes à ansiedade ou a problemas familiares. Se houver preocupação, vale observar também como a criança está se comportando durante o dia, como está dormindo e se apresenta outros sinais de sofrimento emocional. A avaliação deve considerar a criança como um todo, e não apenas o barulho produzido pelos dentes.

Por que o dentista pergunta sobre a respiração quando uma criança apresenta bruxismo?

Durante a infância, especialmente entre os 5 e 7 anos, existe uma fase em que o crescimento das amígdalas e adenoides pode ser proporcionalmente maior que o das estruturas ósseas da face. Isso provoca uma redução temporária do espaço relativo disponível para a passagem do ar. Curiosamente, muitas crianças atravessam essa fase sem apresentar problemas respiratórios evidentes, graças à capacidade de resposta dos músculos responsáveis por manter as vias aéreas abertas (Yoon et al., 2026; Marcus et al., 2005).

Quando o fluxo de ar diminui durante o sono, o organismo pode reagir rapidamente, aumentando a atividade muscular para preservar a respiração. Estudos de Katz, Marcus e White (2006) demonstraram que crianças apresentam respostas neuromusculares à pressão negativa nas vias aéreas, muitas vezes sem necessidade de despertar. Alguns pesquisadores investigam se os movimentos rítmicos dos músculos da mastigação, característicos do bruxismo do sono, também poderiam participar dessa resposta protetora. Essa possibilidade, entretanto, ainda não foi comprovada (Bonacina et al., 2024).

É por isso que, diante de uma criança com bruxismo, o dentista também pergunta sobre ronco, respiração pela boca, pausas respiratórias e qualidade do sono. Estudos identificaram uma associação entre bruxismo infantil e distúrbios respiratórios do sono, embora a qualidade das evidências ainda seja limitada (Orradre-Burusco et al., 2024). O bruxismo não significa necessariamente que a criança tenha uma obstrução respiratória, mas pode ser uma oportunidade para investigar como ela está respirando enquanto dorme. Afinal, compreender o bruxismo infantil exige olhar além dos dentes.

Toda criança precisa de polissonografia?

Não. A polissonografia registra diferentes funções durante o sono. Sua indicação depende da dúvida clínica, especialmente quando há suspeita de outra condição que precise ser esclarecida.

A avaliação costuma começar pelo histórico e pelo exame. Em alguns casos, registros adicionais acrescentam informações; em outros, não mudariam a decisão de orientar e acompanhar.

Criança pode usar placa para bruxismo?

As recomendações da Academia Americana de Odontopediatria para DTM em crianças e adolescentes priorizam uma avaliação apropriada à idade e discutem abordagens reversíveis. Elas não sustentam transformar todo ranger infantil em indicação automática de placa ou de alteração permanente da mordida.

A placa oclusal pode ser indicada em situações específicas, especialmente quando há dor. Entretanto, durante a fase de crescimento e dentição mista, nossa abordagem na Clínica Senso procura ir além dessa proteção. Sempre que existe indicação ortodôntica, buscamos aproveitar essa etapa do desenvolvimento para corrigir o posicionamento dos dentes e orientar o crescimento craniofacial. A avaliação também considera a respiração e o desenvolvimento das vias aéreas, já que alterações respiratórias podem coexistir com o bruxismo infantil.

Existe um tratamento que faça a criança parar de ranger?

Atualmente, não existe um tratamento específico, com eficácia comprovada, capaz de fazer as crianças pararem de ranger os dentes. Isso porque o bruxismo não é necessariamente uma doença, mas uma atividade muscular que ocorre durante o sono e que, na maioria das crianças, não exige tratamento específico. Uma revisão sistemática sobre tratamentos do bruxismo do sono na infância e adolescência concluiu que as evidências não permitem estabelecer um protocolo único.

Nossa primeira preocupação é investigar se existem sinais e sintomas sugestivos de distúrbios respiratórios do sono, como ronco frequente, dificuldade para respirar durante a noite ou pausas respiratórias. Quando necessário, a criança deve ser encaminhada para uma avaliação específica. Também recomendamos medidas simples para melhorar a qualidade do sono, como manter horários regulares e reduzir a exposição às telas, especialmente antes de dormir.

Alguns estudos encontraram associações entre o bruxismo infantil, o uso excessivo de telas e determinados hábitos alimentares, incluindo o consumo de açúcar. Entretanto, essas associações não significam necessariamente uma relação de causa e efeito. Portanto, embora reduzir o tempo de telas e o consumo excessivo de açúcar seja benéfico para a saúde e possa favorecer hábitos de sono mais saudáveis, ainda não existem evidências suficientes de que essas medidas façam a criança parar de ranger os dentes.

Mais importante do que tentar eliminar o bruxismo é compreender o contexto em que ele ocorre, identificar possíveis condições associadas e prevenir suas consequências quando necessário.

Quando a avaliação pode começar?

Se o ranger é frequente, se existe dor, fraturas, desgaste, limitação de movimento e alterações importantes do sono, uma consulta se justifica.

A equipe Senso pode orientar sobre a avaliação especializada com o objetivo de esclarecer o que a criança precisa, respeitando seu desenvolvimento e evitando a indiferença diante dos sintomas, assim como intervenções desnecessárias.

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Sobre o autor

Dr. Bruno D’Aurea Furquim · CRO-SP 129075-IS. Cirurgião-dentista pela PUCPR, mestre em Ortodontia e doutor em Reabilitação Oral, com ênfase em DTM, pela Faculdade de Odontologia de Bauru da USP. Cofundador e integrante da direção clínica da Senso. Perfil profissional no LinkedIn.

Referências científicas