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BRUXISMO

Bruxismo é hereditário? O que a história familiar pode esclarecer

Mãe e filha juntas em casa.
Imagem ilustrativa. Foto: Pavel Danilyuk / Pexels.

A genética pode influenciar o bruxismo do sono, mas ainda não está claro quanto ela contribui para sua manifestação. Estudos com gêmeos sugerem uma participação hereditária (Rintakoski et al., 2012; Takaoka et al., 2017; Pereira et al., 2024), enquanto pesquisas que investigaram genes específicos apresentam resultados variados e ainda pouco conclusivos (Oliveira et al., 2024).

Isso significa que ter pais ou familiares que rangem ou apertam os dentes durante o sono não determina que você também apresentará esse comportamento. O bruxismo é uma atividade muscular complexa, influenciada por diferentes fatores, e não deve ser considerado uma doença por si só. Em algumas pessoas, pode trazer consequências para a saúde; em outras, pode não causar qualquer prejuízo (Verhoeff et al., 2025).

Por isso, mais importante do que saber se existe bruxismo na família é avaliar como essa atividade se manifesta e quais são suas possíveis consequências.

“Minha mãe também rangia os dentes. Será que herdei isso dela?” Essa é uma dúvida comum e que faz sentido. Afinal, pesquisas com gêmeos sugerem que a genética pode influenciar o bruxismo do sono, embora ainda não esteja claro o tamanho dessa influência.

Ter familiares que rangem ou apertam os dentes durante o sono pode indicar uma predisposição, mas não significa que você também apresentará esse comportamento. Além disso, o bruxismo não é necessariamente uma doença: muitas pessoas apresentam essa atividade muscular sem qualquer prejuízo à saúde. Por isso, mais importante do que saber se o bruxismo existe na família é compreender como ele se manifesta em cada pessoa e se está causando alguma consequência que justifique cuidados específicos.

O que significa dizer que existe predisposição genética?

Predisposição genética é uma influência de características herdadas sobre a possibilidade de determinado comportamento ou condição ocorrer. Isso é diferente de uma herança que permite prever, com segurança, que todos os descendentes terão a mesma manifestação.

No bruxismo, a pesquisa procura entender como fatores genéticos podem participar de uma atividade muscular que também se relaciona a outros aspectos da saúde e da vida. Não existe fundamento para resumir essa complexidade à ideia de um único “gene do ranger”.

Uma revisão sistemática de estudos com gêmeos, publicada em 2024, encontrou resultados compatíveis com possível influência genética no bruxismo do sono. A conclusão fala sobre padrões observados em grupos. Ela não permite dizer a uma pessoa, apenas pelo parentesco, quando ou com que intensidade terá bruxismo.

Por que os pesquisadores estudam gêmeos?

Estudos com gêmeos comparam padrões entre pessoas com diferentes graus de semelhança genética. Gêmeos monozigóticos, popularmente chamados de idênticos, compartilham mais material genético entre si do que gêmeos dizigóticos, chamados de fraternos.

Se um comportamento aparece de maneira mais semelhante no primeiro grupo, esse resultado pode apoiar a hipótese de participação genética. Mas os gêmeos também compartilham ambientes e experiências, e a forma de identificar o bruxismo influencia o que a pesquisa consegue concluir.

Na revisão de 2024, a concordância foi maior entre gêmeos monozigóticos. Os autores também avaliaram limitações e a certeza das evidências. Para o paciente, a mensagem útil é reconhecer uma possível influência hereditária sem transformar um resultado estatístico em destino pessoal.

Já foram identificados genes relacionados ao bruxismo?

Pesquisas investigam variantes genéticas, também chamadas de polimorfismos. São diferenças em trechos do DNA encontradas entre pessoas. Alguns estudos avaliam variantes relacionadas a processos do sistema nervoso, da musculatura e de outros sistemas.

Uma revisão de escopo publicada em 2024 reuniu estudos sobre essas variantes e encontrou associações em parte da literatura. O quadro, porém, permanece incompleto, com diferenças entre métodos e resultados. Identificar uma associação em pesquisa não significa ter um teste capaz de orientar sozinho o atendimento.

Descobrir que determinados genes podem estar relacionados ao bruxismo é um avanço para a ciência, mas isso ainda não muda a forma como cuidamos dos pacientes. Até o momento, não existe um exame genético capaz de dizer se uma pessoa terá bruxismo, se ele causará algum problema ou se precisará de tratamento. Essas descobertas ajudam os pesquisadores a entender melhor o comportamento, mas ainda não têm aplicação prática no consultório odontológico.

Por enquanto, a principal contribuição dessas descobertas genéticas é ajudar os pesquisadores a compreender melhor os mecanismos fisiológicos envolvidos no comportamento. Por exemplo, estudos que investigam genes relacionados à dopamina, à serotonina e ao metabolismo da adrenalina e da noradrenalina podem ajudar a esclarecer como o cérebro regula a atividade muscular durante o sono. Essas substâncias participam de processos como a regulação dos movimentos, do sono e das respostas de ativação do organismo. Entretanto, ainda não sabemos exatamente como essas vias se relacionam com o bruxismo. Identificar essas conexões poderá, no futuro, abrir caminho para novas formas de prevenção e tratamento, mas, por enquanto, seu principal valor está em ampliar nosso conhecimento sobre os mecanismos do bruxismo.

Um teste genético pode dizer se eu preciso de tratamento?

Não. Embora estudos recentes tenham identificado possíveis associações entre determinadas variantes genéticas e o bruxismo, ainda não existe um teste genético capaz de prever suas consequências ou indicar a necessidade de tratamento. Na prática, a decisão de intervir depende da avaliação clínica, especialmente da presença de dor, desgaste dentário com consequências clínicas e não do resultado de um exame genético.

O ambiente familiar também pode influenciar o bruxismo?

Sim. Além dos genes, familiares compartilham hábitos, rotinas e condições ambientais que podem influenciar o sono e o comportamento. Isso significa que a presença de bruxismo em várias pessoas da mesma família não pode ser atribuída exclusivamente à hereditariedade. Outro aspecto importante é que o bruxismo do sono costuma ser percebido pelos ruídos produzidos durante a noite. Por isso, quem divide o quarto com alguém tem mais chances de identificar o comportamento, enquanto outras pessoas podem apresentar bruxismo sem que ninguém perceba. Assim, tanto o ambiente compartilhado quanto a maneira como o bruxismo é identificado precisam ser considerados antes de concluir que sua ocorrência em uma família tem origem genética.

O bruxismo do sono e o da vigília têm a mesma influência genética?

Ainda não sabemos se a genética influencia da mesma forma o bruxismo do sono e o da vigília. Estudos com gêmeos sugerem que a hereditariedade pode ter participação nos dois, mas existem mais pesquisas sobre o bruxismo do sono. Como são comportamentos diferentes, suas causas também podem ser diferentes. Por enquanto, não há evidências suficientes para afirmar que a influência genética seja igual nos dois casos.

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Sobre o autor

Dr. Bruno D’Aurea Furquim · CRO-SP 129075-IS. Cirurgião-dentista pela PUCPR, mestre em Ortodontia e doutor em Reabilitação Oral, com ênfase em DTM, pela Faculdade de Odontologia de Bauru da USP. Cofundador e integrante da direção clínica da Senso. Perfil profissional no LinkedIn.

Referências científicas