Resposta direta: Bruxismo do sono ocorre enquanto a pessoa dorme. Bruxismo diurno, chamado com mais precisão de bruxismo em vigília, ocorre enquanto ela está acordada. As duas formas podem coexistir, mas não ocorrem necessariamente ao mesmo tempo. Durante a vigília, podemos tentar perceber se estamos apertando os dentes; mas durante o sono, não há o mesmo controle voluntário. Em ambos, o cuidado depende das consequências, dos sintomas e das condições associadas.
Muitos pacientes usam uma placa para dormir, mas continuam com dor ou cansaço na face no fim do dia. É também importante prestar atenção na ativação muscular parafuncional (atividade dos músculos fora de funções como mastigar, falar ou engolir) enquanto trabalhamos, dirigimos ou estamos exercendo alguma outra tarefa que exige precisão manual ou concentração.
Antes de discutirmos o tratamento, é importante esclarecer quando a atividade é percebida. Sono e vigília exigem formas diferentes de observação e controle.
O que é bruxismo do sono?
Bruxismo do sono é uma atividade dos músculos da mastigação que ocorre durante o sono. Pode envolver episódios de atividade muscular, com ou sem ranger audível. A pessoa geralmente não percebe o comportamento no momento em que ele acontece.
A suspeita pode surgir quando alguém ouve um ruído, quando o dentista identifica alterações que merecem investigação ou quando existe desconforto ao despertar. Cada uma dessas pistas traz informações diferentes.
Uma mandíbula cansada ao acordar não confirma, sozinha, bruxismo do sono. O desgaste dentário também não revela exatamente quando ocorreu. Para entender essas queixas, é necessário reunir a história, o exame clínico e, em alguns casos, registros adicionais.
O que é bruxismo em vigília?
Bruxismo em vigília é a atividade dos músculos mastigatórios enquanto a pessoa está acordada. Pode envolver contato dentário repetido ou mantido, pressão entre os dentes e esforço para sustentar ou projetar a mandíbula.
“Bruxismo diurno” é um nome bastante usado, mas menos preciso. Uma pessoa acordada durante um plantão noturno está em vigília. Se ela dorme pela manhã, a atividade nesse período pertence ao sono.
A atualização do consenso internacional de 2025 mantém a distinção entre essas manifestações. O ponto central é o estado da pessoa, e não o relógio.
Em vigília, o comportamento também pode passar despercebido. Às vezes, a primeira informação é o cansaço depois de uma tarefa; perceber a pressão entre os dentes vem depois.
Como as duas formas se diferenciam na prática?
| Pergunta | Bruxismo do sono | Bruxismo em vigília |
|---|---|---|
| A pessoa consegue observar enquanto acontece? | Geralmente, não. A pessoa pode acordar percebendo dor nos dentes e travamento da mandíbula. | Pode perceber a atividade em alguns momentos |
| De onde vêm as pistas? | Relatos de outra pessoa, história clínica, exame e registros quando indicados | Percepção durante a rotina, relato de sintomas e exame |
| O cuidado comportamental funciona da mesma maneira? | Não há controle consciente durante o sono. Mas a melhora da qualidade do sono é bem-vinda | Algumas estratégias trabalham percepção e mudança de padrões (biofeedback, recurso que fornece informações sobre a atividade muscular para ajudar a percebê-la) |
| A placa é sempre necessária? | Depende da indicação e do objetivo clínico | Também depende da indicação; o uso diurno requer orientação própria |
| O que define a necessidade de cuidado? | Consequências, riscos, sintomas e condições associadas | Consequências, riscos, sintomas e condições associadas |
As duas formas podem ocorrer na mesma pessoa. Se você percebe apertamento ao trabalhar, ainda precisamos investigar o que acontece durante o sono. Da mesma forma, ouvir ranger à noite não explica automaticamente todo desconforto que aparece durante o dia.
O que observar durante o dia?
Uma descrição da sua rotina pode ser bastante esclarecedora. Pense nos momentos em que percebe pressão entre os dentes, rigidez na mandíbula ou cansaço muscular. Acontece durante tarefas longas? Você nota apenas quando para? O desconforto interfere na alimentação ou na fala?
Não é necessário procurar tensão a cada minuto. Sugiro observações breves em situações habituais, sem apertar de propósito para “ver como é”. O objetivo é reunir informação, não criar mais uma tarefa que exige atenção constante.
Também não é preciso manter a boca aberta ou sustentar a mandíbula em uma posição rígida. Orientações de repouso devem ser confortáveis. Se os lembretes aumentam sua preocupação ou fazem você tensionar mais a face, conte isso ao profissional para ajustar a estratégia.
O que vale observar sobre o sono?
Como você dorme e como se sente ao acordar fazem parte da avaliação. Algumas informações úteis são:
- Relato de ranger ou de outros ruídos durante o sono.
- Horário em que o desconforto aparece e quanto tempo permanece.
- Ronco, pausas respiratórias percebidas ou sonolência importante.
- Mudanças recentes nos horários de descanso.
- Uso de medicamentos e substâncias que possam ser relevantes.
Essas informações não formam um teste em que determinado número de respostas confirma bruxismo. Elas ajudam a escolher o que investigar.
Se ninguém divide o quarto com você, isso não impede a avaliação. Também não é necessário passar várias noites tentando gravar sons antes de procurar atendimento. Um áudio pode registrar uma pista, mas não substitui a análise clínica nem identifica toda atividade muscular.
As causas são as mesmas?
Há fatores que podem aparecer nos dois contextos, mas não devemos tratar sono e vigília como processos idênticos. Aspectos emocionais, condições do sono, medicamentos e características individuais podem participar da história de maneiras diferentes.
Tensão durante uma tarefa pode ser percebida junto de concentração, preocupação ou dor. Isso não permite concluir que determinada atividade seja a causa. No sono, a investigação envolve fenômenos que ocorrem sem percepção consciente e outras condições que podem estar presentes.
Minha preocupação é evitar explicações rápidas demais. Dizer que tudo vem do estresse pode deixar dúvidas importantes sem resposta. Se houve mudança após o início de um medicamento, por exemplo, vale conversar com o prescritor, sem interromper o tratamento por conta própria.
Ter bruxismo do sono significa ter apneia?
Não. Apneia obstrutiva do sono e bruxismo têm critérios próprios de avaliação. A relação entre eles continua sendo estudada, e os resultados variam conforme os métodos utilizados.
Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2024 não confirmou uma associação geral entre as condições. Isso reforça a necessidade de investigar cada uma quando há sinais que justifiquem essa atenção.
Ronco, pausas respiratórias observadas e sonolência merecem ser discutidos independentemente de haver ranger. Uma placa oclusal para proteção dos dentes e um aparelho indicado para tratar uma condição respiratória também não são automaticamente intercambiáveis.
Mas sempre é importante triar os pacientes com bruxismo quando queixas podem indicar a presença de distúrbios respiratórios do sono. Muitos pacientes com distúrbios respiratórios do sono leves ou moderados e que preencham os critérios clínicos podem se beneficiar do uso de um aparelho específico que avança a mandíbula e melhora o fluxo respiratório.
Em resumo, os distúrbios respiratórios podem determinar uma indicação de um aparelho que não é a placa "tradicional de bruxismo", chamada tecnicamente de placa estabilizadora, mas de um aparato chamado de aparelho de avanço mandibular.
Placas feitas de maneira inapropriada em pacientes apneicos podem, inclusive, piorar os distúrbios respiratórios do sono.
Quais exames podem ajudar?
A avaliação odontológica examina dentes, restaurações, músculos e movimentos mandibulares. O histórico oferece informações que nenhum exame isolado consegue substituir, como a evolução do desconforto e seu impacto nas atividades.
O STAB, instrumento padronizado para avaliar bruxismo, organiza relatos, achados clínicos, registros instrumentais e fatores associados. Essa visão ajuda a evitar conclusões baseadas em um único sinal.
Quando há indicação, a eletromiografia registra atividade elétrica muscular. A polissonografia avalia diferentes funções durante o sono e pode incluir recursos úteis para investigar movimentos mandibulares. A escolha depende do que precisa ser esclarecido; os métodos não oferecem todos a mesma informação.
Antes de pedir um exame, quero saber como o resultado poderá ajudar você. Investigar uma suspeita relevante faz sentido. Repetir testes sem uma pergunta definida pode trazer mais confusão do que respostas.
O tratamento muda entre sono e vigília?
Algumas estratégias mudam, mas o plano continua dependendo do problema encontrado. Uma pessoa pode precisar de proteção para os dentes; outra, de cuidado para uma condição dolorosa. Em situações sem prejuízo relevante, o acompanhamento pode ser suficiente.
Para o bruxismo em vigília, abordagens comportamentais podem trabalhar a percepção e a mudança de padrões. Uma revisão sistemática de 2026 encontrou resultados favoráveis em algumas estratégias, mas ressaltou que as evidências ainda são limitadas. A resposta precisa ser acompanhada na vida real do paciente.
Durante o sono, não é possível depender da lembrança de relaxar a mandíbula. O cuidado pode incluir proteção dentária quando indicada, manejo dos sintomas e investigação de outras condições. Não se trata de falta de disciplina: o estado fisiológico é diferente e a melhora da qualidade e quantidade do sono é sempre bem-vinda.
A placa é útil nas duas situações?
A placa é um recurso possível, com uma finalidade clínica definida. Ela não deve ser apresentada como uma forma garantida de eliminar toda atividade muscular.
Quando é indicada para proteger dentes, continuar percebendo movimentos não significa automaticamente que falhou. Se o objetivo envolve dor, precisamos acompanhar essa queixa e a condição que a explica.
Usar a placa durante o dia exige orientação específica. Prolongar por conta própria o tempo de uso ou copiar o tratamento de outra pessoa não substitui a avaliação do ajuste, do conforto e da indicação.
Placas resilientes (feitas de material flexível) ou mal ajustadas podem piorar a parafunção, a dor muscular e os contatos dentários (oclusão).
Como saber se estou melhorando?
“Melhorou” pode significar coisas diferentes:
- Menos desconforto e menor duração dos episódios dolorosos.
- Mais facilidade para mastigar, falar e abrir a boca.
- Mudança na percepção de apertamento durante tarefas específicas.
- Estabilidade das estruturas dentárias nos registros de acompanhamento.
- Boa adaptação aos cuidados indicados.
A melhora pode ser significativa mesmo quando não ocorre em todas essas áreas ao mesmo tempo.
Como começar a avaliação?
Leve sua lista de medicamentos, exames anteriores e a placa, caso já use uma. Conte como dorme, quando sente desconforto e o que mudou recentemente. Não é necessário chegar sabendo classificar o bruxismo.
Se você percebe apertamento durante o dia ou recebe relatos de ranger enquanto dorme, agende uma avaliação com a equipe Senso. Vamos olhar para os dois momentos da sua rotina e definir quais cuidados podem ajudar, de acordo com o que for encontrado.
Sobre o autor
Dr. Bruno D’Aurea Furquim · CRO-SP 129075-IS. Cirurgião-dentista pela PUCPR, mestre em Ortodontia e doutor em Reabilitação Oral, com ênfase em DTM, pela Faculdade de Odontologia de Bauru da USP. Cofundador e integrante da direção clínica da Senso. Conheça seu perfil profissional no LinkedIn.
Referências científicas
- Verhoeff MC e colaboradores. Updating the Bruxism Definitions: Report of an International Consensus Meeting. Journal of Oral Rehabilitation, 2025.
- Manfredini D e colaboradores. Standardised Tool for the Assessment of Bruxism. Journal of Oral Rehabilitation, 2024.
- Błaszczyk B e colaboradores. Sleep bruxism may be not associated with obstructive sleep apnea: systematic review and meta-analysis. Sleep Medicine Reviews, 2024.
- Graham DA e colaboradores. Management of awake bruxism: a systematic review. BMC Oral Health, 2026.

